segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sugestão de CD - Maria Alcina, confete e serpentina.

Título: Maria Alcina, confete e serpentina
Artista: Maria Alcina
 

Maria Alcina dispensa apresentações. Desde que roubou a cena em pleno Maracanãzinho, em 72, cantando “Fio Maravilha” (do então Jorge Ben) no Festival Internacional da Canção, permanece como uma esfinge na música brasileira: incontornável, maior do que as explicações. Mas é uma esfinge de carro alegórico, benévola e alegre, espécie de cruzamento entre Carmen Miranda, Ney Matogrosso (que na verdade apareceu dois anos depois dela) e o boneco da Duracell, aquele cuja pilha não acaba.

A própria Alcina ajuda a matar a charada: ela diz que é do tempo em que se “era brega ou era intelectual” – e a sua força pessoal transcende esses complexos culturais. Seus mestres declarados são Gil e Jorge. Ao modo de Raul Seixas (outro que ela antecipou na popização do protesto), sofreu um processo por subversão durante a ditadura militar. E a ditadura não estava errada. É essa dimensão profunda, dionisíaca (portanto sagrada) da festa e do deboche que permite que ela esteja à vontade no júri de um programa de auditório de TV, ou cantando música eletrônica refinada para um público de 1,5 milhão de pessoas (na Parada Gay de São Paulo de 2006). Nesse sentido, Alcina é o legítimo ser tropicalista, que amplifica e digere o repertório da era de ouro das cantoras do rádio, a música nordestina de duplo sentido, as fusões setentistas do rock e da MPB e o que mais vier.

A missão de Alcina e do produtor de seu novo CD, Maurício Bussab, era, de certa forma, cercar, focar e resumir esse território todo, e dar à sua discografia um álbum à altura de seu talento, o que não acontecia completamente desde o primeiro disco, de 1973. Ouvindo Maria Alcina Confete e Serpentina dá para notar que a estratégia levou a três tipos de arranjos: a) sutis ambientes eletrônicos; b) exemplares de MPB evoluída – ou seja, MPB que superou os complexos do gênero para ir em frente, usando recursos contemporâneos, mas sem chiliques para gringo ver, como a drum'n'bossa; c) músicas mais festeiras, como a sensacional "Cachorro Vira-Lata", de Alberto Ribeiro, resgatada diretamente do carnaval de 1937 e do repertório e Carmen Miranda. E pelo menos uma faixa que reúne isso tudo: a releitura da arquetípica “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua", de Sérgio Sampaio. Essa, com a participação do Bojo, de que Bussab é membro, remete à versão de "Sangue Latino" (Secos & Molhados) do CD de Alcina ao lado do grupo eletrônico, Agora, gravado em 2003, seu disco anterior.

Quanto ao repertório, é uma mescla de autores consagrados (Sampaio, Tom Zé, Lô Borges, Paulinho da Viola) e novos talentos, fãs assumidos de Alcina. E um elo, digamos, em Alzira E (ex-Espíndola), discípula de Itamar Assumpção, autora da faixa "Colapso". Os novos compositores são Wado, Moisés Santana, Ronei Jorge, Roseli Martins, e a dupla Adalberto Rabelo Filho e Piero Damiani, do grupo Numismata. Adalberto também ajudou na seleção de repertório. Essa mistura opera circularidades e inversões curiosas – por exemplo, um roqueiro baiano (Ronei) soa neste álbum mais sambista, na magnífica "O Drama", do que o próprio Paulinho da Viola. É de Paulinho a faixa que abre o disco, a notável "Roendo As Unhas", de 1973, que, apesar de ter seu instrumental construído apenas com samples de brinquedos, ficou parecendo um daqueles pós-sambas tensos e contraculturais de Caetano ("Você Não Entende Nada"), Chico ("Partido Alto") ou Erasmo ("Cachaça Mecânica").

De outro baiano, Moisés Santana, é a space-marcha-rancho (!) "Espaço Sideral", gravada com uma bandinha de carnaval literalmente contratada na rua – a Banda do Fumaça –, mais a participação de Tatá Aeroplano. O alagoano Wado comparece com "Não Pára" (título pré-reforma ortográfica), cuja letra parece coisa... do Sérgio Sampaio (e mais uma citação de funk carioca que, sem querer, antecipou a própria guinada de Wado em seu último disco, Terceiro Mundo Festivo). A paulista Roseli Martins é a autora da delicadamente lancinante "Regador".

Em sua primeira parceria, Tom Zé e Lô Borges mandaram "Açúcar Sugar", que lembra... bem, lembra um encontro da Tropicália com o Clube da Esquina, alternando passagens desconstruídas e épicas. A faixa tem a participação de Felipe Julian, do grupo de MPB experimental Axial. E é a personalidade de Alcina que segura essa costura improvável, e a faz funcionar com perfeição. Finalmente, à banda Numismata (uma das inventoras do indie-samba), coube o papel de ser cúmplice de Alcina nas duas faixas que ajudam a amarrar o conceito do disco. A frenética "Das Tripas, Coração" parece saída diretamente do disco de estréia de Alcina, aquele de 1973, mais um toque oportuno de Novos Baianos. Já "Maria Alcina, Confete e Serpentina" é a pura celebração da diva e de seu ritual dionisíaco, um achado (anti) conceitual.

Feitas as contas, este é um disco um tanto mais denso e intrigante do que o título sugere ("Porque alguém tem que fazer o que é preciso/ E invadir o inconsciente coletivo", como diz a letra da faixa-título). A capa – design de Luciano Pessoa sobre fotos de Feco Hamburger – captura esse clima com perfeição e beleza. O disco demorou dois anos para ser gravado, e mais seis meses de pós-produção. Um luxo. Maria Alcina Confete e Serpentina é um veículo da cantora, claro, mas traz de bônus uma espécie de reflexão sobre o estado da música brasileira – e uma abordagem que supera tanto maneirismos artificiais quanto fundamentalismos descabidos, ao juntar a intuição e a inteligência, a paixão e o humor. Avisem Maria Alcina que, como uma espécie de Marianne Faithfull carnavalizada, ela sobreviveu artisticamente aos seus mentores e/ou contemporâneos, e hoje dá as respostas frescas que eles mesmos já não têm.

Quem quiser conferir, vale a pena.
Valor R$ 24,90 nas lojas Americanas

Confira trechos das músicas: