terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Breve balanço do governo Anastasia


Por Rudá Ricci 

Começo arriscando sugerir que Anastasia é mais progressista e avançado que seu governo. Não apenas por seu passado, mas até mesmo pelo que anunciou no início da sua gestão. De cara, criou algumas câmaras setoriais (do café, por exemplo) e uma de assuntos sindicais. Liberou a imprensa mineira. É verdade que neste último ponto teve como contenção a ausência de recursos para serem distribuídos. Mas existe um traço pessoal que fez da oportunidade um presente.

Mas Anastasia é herdeiro das alianças e camisas de força criadas por seu antecessor.

O fato é que a marca de seu perfil é o de gestor. Quando secretário de Aécio Neves, reformulou a auditoria interna do governo estadual e expandiu sua função, criando um sistema de avaliação de metas e projetos estruturantes. Criou um formato na gestão, com prioridades e indicadores de resultado. Em diversas consultorias que prestei para órgãos estaduais era visível o temor de todo primeiro e segundo escalões quando da visita de um dos técnicos da equipe de Anastasia. O que quebrava a dinâmica tradicional de governos, onde o primeiro escalão trava guerras surdas, mas se une na mediocridade da defesa do governo. Ao contrário, Anastasia não deixava nada encoberto e a unidade estava no resultado concreto da ação de cada órgão, respeitando as prioridades e estratégia da gestão. Faltava, obviamente, um sistema mais aberto e transparente para a sociedade. Mas era um avanço.

Este perfil técnico e pouco afeto às condescendências políticas não se revelou por completo neste primeiro ano de governo.

Três situações merecem destaque, neste sentido:

1) Crise financeira. O governo mineiro deve 57 bilhões de reais à União. Recentemente, pediu autorização à Assembléia Legislativa para contrair empréstimos no exterior, em parte, para pagar a CEMIG. Este é um limite efetivo para a capacidade de resposta política do governador. Seu campo de ação está mais limitado. No primeiro ano do governo Aécio a situação parecia similar. Mas aí vem o faro político. Aécio simplesmente cortou na carne e anunciou que não faria grande coisa nos dois primeiros anos. Fez caixa.
2) A oposição renasce em MG. Nos anos Aécio a oposição era figurativa. Não apenas em função da capacidade política do governador, mas principalmente em função da escolha de Lula em fazer afagos ao governo mineiro, estimulando a cizânia tucana. No primeiro ano da gestão Anastasia tudo foi diferente. Clésio Andrade, o ex-vice governador de Aécio Neves, assumiu uma cadeira no Senado atirando no ex-aliado e bandeando para o lulismo. Em seguida, formou-se o bloco parlamentar Minas Sem Censura. O próprio nome adotado pelo bloco oposicionista sugeria que algo havia mudado. PMDB e PT, em especial (o bloco contava, ainda, com PCdoB e PR), afiaram as garras e colocaram o Aecismo na parede. O caso do bafômetro carioca envolvendo Aécio foi alçado à condição de nitroglicerina. Em seguida, a greve liderada pelo SindUTE que bateu recorde de dias parados no magistério público mineiro. A superexposição chegou a abalar a montagem da agenda do governador, que temia ser vaiado em cada cidade polo que visitasse.

3) Mudança no núcleo duro de gestão. Em tempos de Aécio, o núcleo duro de gestão era composto por Anastasia, Andrea Neves e Danilo de Castro. Em tempos de Anastasia, Andrea e Danilo perderam poder. Ainda mandam, mas sem grande desenvoltura. No lugar da tríade, emergiu Maria Ceoli Simões Pires, secretária da Casa Civil e Relações Institucionais. Amiga pessoal do governador, Ceoli é técnica e firme. É acionada para quase tudo. Obviamente que esta mudança gera impactos. Tanto no trato com a Assembléia Legislativa, como prefeitos e aliados políticos. Mas o impacto maior fica no interior do governo. Nenhum político gosta de perder poder. E, na prática, criaram-se algumas zonas de auto-governo. A área social continua sem rumo. Sempre há problemas políticos numa transição.

Anastasia implementará mudanças no início de ano. Mais uma semelhança com Dilma Rousseff. A Secretária de Educação está na mira e parece caso certo de mudança. Mas a crise internacional, que afeta duramente Minas Gerais (como todas crises internacionais) diminuirá ainda mais o espaço de manobra do governador. Começou anunciando inovações, mas terá mais um ano de defesa. Pior, por ser ano eleitoral. PT e PSDB sugerem que pretendem aumentar em 50 prefeitos em seu reinado mineiro. E PMDB afirma que manterá seu atual quadro de prefeitos. Faltará município.