domingo, 11 de dezembro de 2011

DESPERTA, CATAGUASES!

“Cataguases existe.” 
(Owald de Andrade)

 Experimente a urbe, metro a metro, paralelepípedo a paralelepípedo, pé-a-pé, pela vastidão das calçadas.
 Encontre por lá, se puder, um Marcier no Princípio do Mundo. Mas antes, na entrada do educandário, tire o chapéu e curve-se para o Medeiros. Desconfie, porque o Anísio, altivo, pode ter voado, junto com as suas Pombas rumo à Astolfo Dutra, pousando o centro de uma Feira Nordestina que ele mesmo gestou !? Sem licença prévia, pode ter entrado na casa da Nanzita e urdido raptar Helena de Tróia,  a outra,  cria de Marcier, que, felizmente,  não pode dali sair: continua divina e sem asas no afresco da parede do vasto salão.
Os malucos da década de cinqüenta do último século teimam - como Sem-Terras - em ocupar o nosso imaginário. Vieram de vários lugares, aninharam-se e daqui mais não saem, daqui ninguém os tira.
A obra no artista, o artista na obra! Niemeyer, antes Brasília, foi Ginásio Cataguases e morada do velho Chico; Portinari, o comunista, deixou legado à vista do povo: As fiandeiras! As magras e elegantes fiandeiras e seus teares!
E aquela preguiçosa mulher, atrevidamente deitada na entrada do hotel Cataguases, oferecendo-se como uma artista da fome? Ora, uma mulher que nem tem nome, cria de Zach, sueco que o povo nem conhece! Sabe-se também de boca pequena que ela – a tal mulher – é da parentalha de um pensador–vagabundo, cuja outra  irmã, também ociosa, mora, goza e não paga aluguel do frescor do jardim de Burle Marx, na casa feita "de trás-pra-frente" da Rua do Pomba.
 E a Nacional? Estrangeira na arquitetura do município, solário para banhos e luz, ditosa, com seus apartamentos duplex, como o nome de seus artistas criadores MM Roberto!
Cataguases, Cataguases, Cataguases!
Desperta povo de Cataguases!

Senta nos móveis de Joaquim Tenreiro, chora pelo Cine-teatro Edgard (que de romano, como o Recreio, só guarda o reverberar de espadas e lanças das cruzadas medievais e do Cristo crucificado dos filmes da década de setenta)

Cataguases, Cataguases, Cataguases!
Desperta povo de Cataguases!

E reaja à degola das árvores, ao silencio tumular do Paço diante da desfiguração da Vila Operária (retirem as grades e os muros!) ; à deliberada demolição do prédio antigo da  antiga redação do Cataguases.

Do Cataguases de Manuel das Neves, de Alzir Arruda, Sebastião lopes e tantos beletristas que por ali passaram, deixando marcas indeléveis em nossas memórias!!

Não nos permita, por Deus, “habitar casas indignas!”
 Não deixe que matem Aldary, Bolonha, Leão, Aquino, Edgar do Vale e a sua própria história. Mauro não faria esse filme de terror para nossas vidas. Guilhermino, Ascânio e Francisco não poetizariam o presente holocausto público. 
Cataguases, Cataguases, Cataguases!
Desperta povo de Cataguases!
 
Por Vanderlei Pequeno
Vereador (PT-Cataguases)
Texto publicado no Primeiro Jornal