segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

[Teresópolis] Carta Manifesto - 12 de Janeiro de 2013

Teresópolis, 12 de janeiro de 2013.
 
No dia 12 de janeiro do ano passado, quando a tragédia completava um ano, foi lida uma carta aberta nesta mesma praça, que iniciava dizendo que poderíamos estar aqui, naquele momento, para protestar e cobrar, para reclamar as promessas não cumpridas, denunciar pelo descaso e pelas omissões dos gestores. Para cobrar o aluguel social que não era pago ou as indenizações que não aconteciam, mas que aquele não era o dia.

Dizíamos, naquele momento, que não era hora para reclamar pela demora na construção das pontes ou casas, pela demora nas obras de contenção e tantas outras anunciadas.
Não era hora para reclamar pelas verbas mal empregadas ou pela incompetência no uso dos recursos públicos, pois entendíamos que não era o dia, pois 12 de janeiro era um dia de memória; dolorida, mas necessária memória por tudo que ocorreu.
Porém, passado mais um ano, novamente estamos na praça e o que podemos dizer?

Devemos protestar em razão das promessas não cumpridas?
Pelas casas que não foram construídas?
Pelas pontes que ainda não existem?
Pelas vistorias e pagamento de indenizações que não acontecem?
Devemos denunciar o permanente descaso e omissão dos gestores públicos?
Ou será que mais uma vez devemos nos ater ao silencio em memória das vítimas?
No ano passado falávamos em acreditar na reconstrução de uma nova cidade, em superar o sofrimento em resgatar a capacidade de sonhar e de ter esperança.
Porém, passado mais um ano, novamente estamos na praça e novamente faremos um minuto de silêncio...
Entendemos, porém, que agora nosso minuto de silencio, além de representar nossa reverência aos mortos e desaparecidos, é também nosso grito de revolta, nossa solidariedades com todas as vítimas e afetados, nossa convicção de que estamos numa guerra contra o descaso, contra o egoísmo dos que só vem o individual quando deviam trabalhar para o coletivo, contra os que se esquecem de que um dia vão morrer, contra os que usam seus discursos para nos enganar e roubar o que é de todos.
Entendemos que, enquanto não houver uma resposta efetiva sobre a construção de casas, pagamento de indenizações, reconstrução de pontes e realização de obras, nenhuma vítima da tragédia de 12 de janeiro de 2011 poderá se calar.

Entendemos que passou da hora das autoridades entenderem que não seremos esquecidos e não nos tornaremos mera estatística.
Não são números que aguardam indenizações ou casas, são famílias que perderam seus lares e seus entes queridos.
Não são números que há dois anos se submetem à incerteza e à burra burocracia do aluguel social, são famílias que não têm mais onde morar.
Não podemos admitir que se fale em retomada do crescimento, oportunidades com a Copa do Mundo ou Olimpíadas enquanto cerca de três mil famílias vivem diariamente a incerteza da solução de seus problemas, vendo a cada ano que passa (e agora já são dois...), os seus problemas colocados em segundo plano.
Nós, vítimas e afetados com as chuvas de 12 de janeiro de 2011, não somos lixo e não seremos varridos para baixo do tapete.
Não somos pessoas de categoria inferior aos demais teresopolitanos e por isso merecemos resposta aos problemas e não aceitamos a chantagem do aluguel social. Que transformou uma ação emergencial, numa tentativa sórdida de nos calar, de nos fazer aceitar a omissão, a falta de competência e de compromisso com a coisa pública, a falta de resposta e de responsabilidade.
Assim, que seja nosso minuto de silêncio hoje e que daqui em diante um sinal de que não nos calaremos até que todas as vítimas e afetados tenham seus direitos atendidos.
Calar-se sobre nossas feridas é exaltar o conformismo.
Em vez disso, trabalhemos duro; acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la.
Pois há dois anos existem pessoas que não conseguem dormir... o que não é justo..., não é moral... É covardia!
Covarde é também aquele que se cala, se omite, tenta ignorar os fatos e fechar os olhos ao mundo à sua volta.
Acorda Teresópolis!
(o)