domingo, 30 de agosto de 2015

O vestido florido da Eterna Nanzita


 Escrito por Cairu Teles Nunes
Marchand, Cariocataguasense

Nas minhas tantas idas a trabalho ao Rio de Janeiro, sempre encontrava também um tempinho de folga para espairecer. Numa dessas ocasiões, estava eu em Botafogo, apenas passeando, livre e distraidamente pelos corredores do Shopping Rio Sul, até que me deparei, estonteado e aturdido, diante da vitrine de uma loja. Ali estava um belíssimo vestido, todo ele florido. Emocionado, imediatamente pensei em Nanzita. Ao observar aquela fina e delicada estampa, cada detalhe do vestido florido me fazia lembrar as telas, o estilo expressionista de cores vivas e fortes, a técnica apuradíssima, a inspiração, o talento e a sensibilidade da Nanzita...

Não me contive e entrei na Krishna, uma especializada na moda feminina. Naquele momento, estava lotada de senhoras, com balcões e vendedoras ocupadas, o que me causou um natural constrangimento. Todavia, não demorou muito e fui “socorrido” por uma atendente muito gentil que, ao perceber o meu “sem jeito” foi logo afirmando e perguntando ao mesmo tempo (enquanto lançava sutilmente um olhar para a aliança conjugal que trazia em meu dedo): “Quer o vestido para sua mulher, não é isso? Temos também outros modelos também, quer ver?”. Mais à vontade, pedi a ela o número do manequim da Nanzita e, claro, disse também que seria desnecessário mostrar-me outras peças. Como acontece no amor ao primeiro olhar, já estava decidido por aquele vestido. Saí da loja feliz da vida e levando, como se fosse um troféu, aquele encantador vestido florido para presentear a Nanzita.

Nesta hora de recordação, em que exponho nesta simples narrativa apenas um dos numerosos e significativos momentos de amor, carinho e ternura vividos ao lado da minha mulher, eu choro. Choro sozinho e no silêncio da biblioteca da Residência-Ateliê da Nanzita, movido aqui pela saudade e pela feliz lembrança da mais importante pessoa da minha vida. Lembrança essa eternamente pulsante e vivaz em suas telas, nas bromélias e orquídeas desses jardins e em cada detalhe do mobiliário desta casa. Com Nanzita, entre muitas outras coisas, aprendi a interpretar ópera. Nanzita também me ensinou a amar a natureza como ninguém. A mesma natureza muito bem cuidada por ela mesma em seus jardins e que a inspirava para os traços intuitivos, nas suas fortes ou suaves pinceladas. A mesma natureza que, naquela tarde na loja do Shopping Rio Sul, eu contemplava retratada naquele belo vestido florido que parecia ter sido feito especialmente para a Nanzita.

E aquela peça de roupa tão singular, tomada pelo simbolismo e que hoje guardo em meu quarto, com o tempo, pude perceber ser ele o vestido que Nanzita mais usava. Certa vez, a alertei para o risco de causar uma má impressão: “Nanzita, as pessoas vão pensar que você só tem esse vestido”! E não esqueço de suas palavras dóceis, mas decididas: “Não importa o que vão pensar. É este o vestido que mais gosto na minha vida”. E deu-me um beijo. Ao relatar a história do vestido florido para a nossa cozinheira, ela falou-me: “Seo Cairu, a Dona Nanzita é simplesmente apaixonada pelo senhor”.

Poucos dias depois de perder a Nanzita, uma outra senhora fez-me uma revelação que me tocou profundamente. “Disse-me que a Nanzita tinha para ela comentado que fui eu a pessoa mais importante na sua vida”. Só então entendi claramente o que representou aquele vestido florido para a Nanzita que, artista em plenitude, soube como poucos usar a linguagem metafórica para expressar suas emoções, para falar do que amava, a inspirava e a movia, sejam pessoas, seres ou objetos. Para falar de tudo o que a encantava....Ou será que tudo se encantava com ela? Fada Nanzita!
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